sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Poeta da existência 2

Quero ter olhos de poeta ,
ver para além da existência; 
olhos de turista: curiosos e atentos
que escrutinam o mundo em busca da essência.
De que vale viajar
sem ser poeta nem ter visão de turista?
Quero perscrutar para além do espectro de luz visível
o que só a alma nobre avista.
Quero a sensibilidade do artista
que sente o que é inefável nos seres:
a hesitação na asa da águia no seu voo picado;
o leve deslizar da dança de um cisne num lago gelado;
a tristeza por trás do sorriso de um velho solitário;
a leveza do vento quando lhe obstruo a travessia.
Quero ouvir o marulhar das ondas
no seu monólogo perpétuo,
entender as vozes que só ele deixa ouvir:
versos cantados de um amor atraiçoado e febril,
carregado de falsas promessas;
ou quem sabe o desespero de quem no mar se abandonou,
e no grito da sereia se alegrou.
Quero, sofregamente, sorver cada gota de sol na alvorada
apreciar o momento exato em que se abandona à volúpia e se banha no rio,
enchendo de ouro as suas águas que me salpicam a pele
quero a chuva que me castiga , o cheiro a terra molhada.
Quero viver no fio da navalha,
qual inseto que só vive uma manhã
cair num abismo sem retorno,
cheirar o aroma fresco da hortelã.
Quero sentir a vida palpitar-me nas entranhas
e não parar para pensar se estou certa ou errada, se posso, se devo.
Quero viajar na escuridão da existência,

 mergulhar na angustiante passagem do tempo, 
os meus terrores escondidos conhecer
as palavras que não tive coragem de dizer,
transcender o ser tenebroso que ora me habita, ora se vai sem avisar;
amar sem vergonha nem medo de acabar…


quinta-feira, 29 de agosto de 2013

A dama de lilás

Dir-se-ia saída de algum baú da história, talvez inglesa mais condizente com sua altivez. Tinha um “je ne sais quoi”, uma aura emanando de uma mistura de naftalina e alfazema que impelia a que se a olhasse. Vi que não era a única que reparava nela pois embora aparentasse ser já septuagenária chamava a atenção pelo que irradiava; como se tivesse a força da juventude aprisionada dentro e o aspeto exterior contrariasse a sua  firmeza de caráter que se revelava no andar.
Exceto a rede preta que lhe apanhava os cabelos, ralos e raiados de prata, sem estarem pintados, todo o resto da sua indumentária era lilás; de todas as tonalidades possíveis. Os sapatos, esculpidos por mãos hábeis e experientes de algum sapateiro à antiga cuja perfeição se observa em cada ponto dado, apresentavam, de todo o conjunto, o lilás mais escuro do espectro: tinham uma mimosa flor que ornamentava o peito do pé, um pouco deformado pela idade, mas que sustentavam uma figura digna de nota, digna de ser imortalizada.
O corpo denotava já uma ligeira corcunda que o tailleur de bom corte permitia disfarçar, também ele lilás, não tão escuro como os sapatos, nem tão claro como a mala que sendo grande se encaixava no conjunto criando uma harmonia inesperada. Da extremidade das mangas sobressaiam umas mãos finas de veias salientes e uma pele branca sem marcas , contrastando com um pescoço, este sim, traindo a idade sem deixar que se aproximasse nenhum bisturi das artes modernas; plásticas com certeza.
 Tinha um sorriso gentil, embora firme, e uns olhos vivos de uma lucidez encantadora que hipnotizaram quem a atendia na repartição pública pois reparei na deferência com que foi, subtilmente, passada à frente de quem já lá se encontrava e, também eu ,enfeitiçada que estava a observar a figura, não me incomodei com tal desplante que noutra altura qualquer me faria reclamar com indignação: ninguém se pareceu incomodar, aliás.
Ali fiquei eu, no meu anonimato, sendo transportada para um qualquer romance do século XIX que uma pincelada de contemporaneidade tornava inaudito, sendo reduzida à inexistência por quem me lembrou de imortalizar sem pedir consentimento. Mas é que é digno de registo a observação de coisas que o apetite voraz do tempo não consegue devorar. Mulheres! Não temeis, que o tempo pode consumir o corpo, mas não consome o espírito sem autorização.  

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Mostra-me o estendal, dir-te-ei quem és.

De entre todas as técnicas que possibilitam que se conheça alguém, uma das mais promissoras é a de cuscar os estendais alheios. A observação minuciosa destes pode ser revelador da personalidade de cada um dos habitantes, numa dada morada, e isto de uma só assentada. Acredito que Freud teria tido muito a ganhar se a tivesse utilizado pois poderia, com toda a certeza, ter poupado horas preciosas do seu tempo em que, refastelado no sofá, tomava apontamentos da verborreia que assomava à cabeça das donzelas da alta classe vienense; pena que já não esteja entre nós pois acredito que de imediato levantaria o nobre cagueiro e correria as vilas e cidades em busca de roupa pendurada!
Com facilidade se percebe as pessoas dadas a dissimular traços não de personalidade, mas de carne em excesso nas coxas, rabo e ancas que isto de viver no século XXI não é propício a ser mulher, inclinadas que estamos a  acumular os excessos de bens alimentícios nas zonas supra citadas e, como está longe a Mauritânia!  Onde gordura ainda é formusura nem que seja  conseguida pela inserção forçada pelas goelas abaixo de cuscuz e leite de camelo  – e não é para a malandrice que camelo serve também para designar a fêmea. Também não estamos nos séculos XVII ou XVIII onde esta inclinação tão feminina de guardar nutrientes no sítio errado era motivo de alegria e dava acesso direto a ser estrela na tela de algum Renoir. Não. O nosso século é cruel por isso é até compreensivo que se desenvolva uma personalidade dissimuladora de curvas, tendência esta facilmente percebida pelas cintas completas que se veem penduradas e que esmagam as carnes desde os joelhos até às costelas, na esperança talvez que recebam os seios as carnes que sobraram.
Muito fácil também é detetar aspirantes a cientistas e, consequentemente, aéreos por natureza pelas meias de pares trocados que se encontram a balançar retorcidas no estendal, tendência irritante que se lhes perdoa, se forem homens, pois já Einstein se enganava nesse assunto, sendo mulher, como as collants vêm juntas não dando azo a este tipo de distração serão os conjuntos de lingerie que darão a um olho treinado pela experiência essa informação: repare-se se o tamanho do soutien coincide com as cuecas, se não, podemos atestar a ocorrência de uma personalidade tendencialmente distraída; ou será simplesmente uma mulher mal jeitosa cujas mamas saem ao pai e o rabo a alguma familiar de proveniência latino-africana cujo ramo antigo e desconhecido lhe deveria negar o direito de nos assombrar a genética?
E os obsessivo-compulsivos? Esses são os mais fáceis de detetar  pois a roupa, imaculadamente estendida, sem rugas nem traços que faça suspeitar que ainda se encontram a secar, está pendurada e toda enfileirada, agrupada por cores e tamanhos, bem segura por molas que a agarram em locais específicos e, milimetricamente, escolhidos fazendo corar de inveja as donas de casa à antiga, cientes da impossibilidade de competir com tal zelo e perfeição.

 E quanto aos mais desmazelados ou em vernáculo puro português os porcos? Bom, também é só olhar o branco dos lençóis estendidos: se for pouco menos que branco cal pode-se dar um atestado de imundície, convêm é primeiro certificarmo-nos que não são só as vidraças das nossas janelas as culpadas pela impressão causada, sujas que estão pela nossa personalidade cusca que está para aqui a perder o tempo, precioso e necessário para as limpar, a reparar nos estendais alheios.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Ator principal

Somos atores sem papel principal cuja cortina fechará sem que seja dado o toque que anuncia o final do último ato, sem que tenhamos a oportunidade de agradecer os aplausos a um público, um tanto ou quanto  delirante, a quem ajudámos a sustentar os dias…
Que falta de pudor! Como nos pode ser negado esse legítimo direito ? Como podemos desconhecer esse importante dado sobre nós? Todos vão saber, todos menos nós, pobres ignorantes, embriagados que estamos ainda pelas luzes do teatro da vida. Continuaremos a sorrir, como se nada fosse, a representar um papel mais ou menos fidedigno como se hoje fosse, eternamente, o prelúdio do amanhã, como se o sol lá estivesse para  sempre e nos cumprimentasse pelas frestas entreabertas das persianas, trazendo toda a existência em partículas de luz…
 Porque temos de compartilhar esse momento em que voltaremos à essência primordial? Sem qualquer outro adereço senão uma data desconhecida que se segue ao terrível traço que embora nada mais seja que um insignificante sinal de escrita separa, aqui, dois vácuos eternos preenchidos, somente, por uma centelha da nossa existência; grande segredo nos ficará para sempre vedado…
Continuaremos a peça, escrita para nós por mãos feiticeiras e imaginárias, com o mesmo fulgor de um principiante que aguarda, a medo, a ascensão, o dia em que se tornará o protagonista do enredo. Representaremos o nosso papel durante um pestanejar do universo, um bater de asas diáfanas, um relampejo do cosmos, esquecidos da finitude da trama que, apesar de tudo, prosseguirá sem nós. Não há que esperar! A peça não tem hora de acabar e esse guião não contempla a vontade do ator nem os seus esforços de representação.
Deturpemos a peça, agradeçamos ao público sem esta ter terminado, mas sobretudo sejamos nós o protagonista da história da qual reescrevemos o guião para que o elenco, embora siga em frente sem nós, se recorde da história impar que partilhámos e em que cada um era a estrela da sua própria peça.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Mãe

Hoje nasceu-te mais uma ruga mãe. Quase posso jurar tê-la visto nascer, posso assegurar-te que ontem não te enfeitava o canto da boca quando sorriste. Não a negues nem rejeites, fica-te bem, aí mesmo, onde decidiu plantar-se indo juntar-se às que já te adornavam a face. Amo-as, sabes? Amo-as mais do que algum dia amarei as minhas; assim tenha eu alguém que se compadeça e ame o que o tempo escrever em mim.
Estás velhota e cansada. As tuas mãos já não criam belas peças com tecidos comuns que te faziam artista na tua arte: agora a rigidez apoderou-se delas e já só andas apoiada em mim, mas sei que são os momentos em que te apoio e te toco que te fazem viver, sei também que anseias que te deite, te levante, te ampare para sentires o meu calor. Gostas de beijos e abraços e quando, apressada, não tos dou, nas pregas da face faz-se sentir com mais violência a força da gravidade.
Observo-te agora e vejo como te amo, muito mais do que em qualquer outro momento, na verdade, aprendi a amar-te no momento em que abdiquei de julgar as tuas atitudes, o teu afastamento, os teus silêncios. Porque calas mãe? Porque não te sai um ai, um desejo, um pedido da boca? Só dizes : «Sonhei contigo.» ou então:« Fiz-te tanto mal, tu és uma boa menina» e eu aplaco-te a alma dizendo que não, que nada me fizeste de mal. Mas houve um tempo que também eu acreditava que sim. Que sei eu da existência para te julgar as ações ? Seria eu capaz de fazer melhor com o que tu tinhas?
Serás feliz, apesar dos dias, semanas, meses iguais? Ris-te como uma criança na tua demência, ou serei eu que assim te vejo? Ficas quieta enquanto as mandíbulas vorazes do tempo te consomem o que te resta de vida. Terás vivido em vão? Terás medo da inexistência ainda em vida, tal como uma flor que nasce entre as pedras sendo pisada antes de ter sido observada ( que desperdício!), as tuas lágrimas, terão sido derramadas com outro propósito que não o de te aliviar a alma? Não sabes responder a estas questões difíceis e também não parecem incomodar-te, ou serei simplesmente eu que não o  consigo enxergar?
Dás-me todos os dias a oportunidade, cada vez mais rara, de encarar a degradação do corpo e do espírito; ah, quão difícil é observar a decadência assim de tão perto, sem os subterfúgios de salas asséticas onde tudo o que lembra o declínio natural é removido da vista. Não. Aqui tudo é visto na sua crueza fria e medonha: todos os cheiros a podridão, todos os descuidos do corpo dependente, toda a tragédia humana na sua amplitude, a aproximação da morte.

Como somos frágeis! Como nos esquecemos disso nos anos de autonomia. Como nos faz falta o amor, capaz que é de nos tornar eternos! Eu amo-te, sabes? Hoje mais do que na tua juventude. Aprendi a amar-te por te cuidar. Compadeci-me da tua condição por me lembrar da minha: não serei também eu um simples ser mortal em busca da eternidade? Ao aceitar-te aceitei-me nas minhas fraquezas, na minha humanidade deveras comovedora. Quão enternecedor é olhar um ser despojado de todas as vaidades, de todos os desejos, na mais completa entrega a outrem. Que seria de ti mãe, sem o meu amor? E que seria de mim afinal se me tivesse sido negado ver, sob o  manto da hipocrisia, esse  manto de retalhos  dos subterfúgios modernos com as suas cores vivaças e garridas, o manto cintilante e falso que só quer ver refletida a juventude, a beleza, o esplendor, o  quanto precisamos uns dos outros afinal?

Maria João Varela

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Poeta da existência 1

Quero ter olhos de poeta e ver para além da existência;
olhos de turista: curiosos e atentos que escrutinam o mundo em busca de prazer. De que vale viajar e não ser poeta nem ter visão de turista?
 Quero perscrutar para além do espectro de luz visível o que só as almas nobres veem.
Quero a sensibilidade do artista que sente o que é inefável nos seres: a hesitação na asa da águia no seu voo picado;
o leve deslizar da dança de um cisne num lago gelado;
a tristeza por trás do sorriso de um velho solitário;
a leveza do vento quando lhe obstruo a passagem.
Quero ouvir o marulhar das ondas no seu monólogo perpétuo e entender as vozes que só ele deixa ouvir:  versos cantados de um amor atraiçoado e cruel, tantas e tantas vezes carregado de falsas promessas;
 ou quem sabe o desespero de quem no mar se abandonou, ou o grito da sereia cansada da sua inexistência.
Quero, sofregamente, sorver cada gota de sol, apreciar o momento exato em que se abandona à volúpia e se banha no rio, enchendo de ouro as suas águas que me salpicam a pele;
quero o aroma fresco da hortelã,  a chuva que me castiga a pele, o cheiro a terra molhada.
 Quero viver no fio da navalha e a qualquer altura cair num abismo sem retorno,
 viver qual inseto que só vive um dia;
quero sentir a vida palpitar-me nas entranhas e não parar para pensar se estou certa ou errada, se posso, se quero, se devo.
Quero viajar na escuridão da existência, mergulhar na angustiante passagem do tempo, conhecer os meus terrores escondidos, as palavras que deixei por dizer;
 transcender o ser tenebroso que ora me habita, ora se vai sem avisar;
 amar sem vergonha nem medo de acabar…



quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Cartas, cartões e outras complicações

Uma vez mais tive de me deslocar à loja do cidadão, consequência de no último ano ter mudado de morada três vezes. Uma ilação a tirar é que estando já habituada, conhecendo os trâmites da coisa, a tarefa se tornaria mais fácil; porém, nada mais enganador… este é o tipo de tarefa cuja dificuldade é inversamente proporcional ao número de vezes que se pratica. E tudo por causa da “carta” ou melhor das “cartas” que se vão acumulando em cada ida aos ditos serviços.
Como se não bastasse a longa espera, devido talvez ao facto de Agosto ir no seu auge e a sala de espera estar cheia de emigrantes, começo a preocupar-me, o que se nota pelas mãos transpiradas e coração ligeiramente acelerado: qual é afinal  a carta que tenho de apresentar? Bom, a que recebi agora, via correio, é de certeza, mas a primeira se não me engano também pois lembro-me perfeitamente de noutra minha ida aos mesmíssimos serviços uma solícita funcionária me ter vivamente aconselhado a tê-la sempre comigo, ou será que só é preciso uma? Começo a ficar confusa…
Já conformada com a longa espera, entretenho-me  a observar os que chegam: passo estugado até confirmarem com desalento que terão de dedicar os tempos mais próximos de pé, ou sentados se a lotação o permitir, naquilo que é habitualmente uma pausa indesejada por qualquer cidadão por muito sentido cívico que tenha. Sozinhos, aos pares ou em bandos familiares heterogéneos chegam e lá vão como podem passando o tempo restante até ao momento tão aguardado quando são atendidos. O nervosismo sai-lhes pelos pés que abanam num frenesim ou pelas palavras menos corteses que lhes sai pela boca para os seus mais próximos, familiares ou amigos - « Para que estás para aí a ateimar?»; « Quieta, senão levas já!» e outros impropérios mais ou menos ofensivos.
A juntar à tensão da longa espera assolam-me agora com maior vigor as dúvidas sobre os códigos ou PIN(s). Jesus que me acuda que o imbróglio é contumaz. Ao todo, nem sei bem quantos são, talvez uns cinco ou seis por carta e eu ainda mudei os meus, que se lhes vieram juntar, aumentando assim a confusão e, pensando bem, será que mudei todos ou só alguns? Tento-me acalmar:« Que problema é que pode advir daí? Se me enganar, volto a tentar de novo». O coração dá um coice agora com maior violência. « Se me enganar o cartão bloqueia! Meu deus, a funcionária da outra vez advertiu-me com veemência que isso, Jamais, poderia acontecer e pela cara dela pude ver que era grave se bem que não me informou sobre o que na realidade aconteceria…».
Tiro um lenço de papel da mala e enxugo o suor que é agora abundante nas palmas das mãos. Vai-se, lentamente, aproximando a minha vez, mas desejo agora que demore mais até me decidir qual das cartas vou apresentar e qual dos códigos vou digitar. As caras sorridentes dos posters na parede contrastam com as dos utentes e funcionários que tentam, apesar de tudo, tolerarem-se uns aos outros e mais uma vez me assola uma questão:« deveria ou não ter trazido a primeira carta, a primeiríssima que me deram quando tratei do cartão de cidadão? Não, essa não porque penso que até já a poderia ter deitado fora, mas persegue-me a voz grave da funcionária – a carta, sempre consigo, sempre consigo, sempre consigo…». Lembro-me agora que já tive de pagar uns euros extra por tê-la guardado tão bem, preocupada com as indicações da funcionária, que nem eu própria a encontrei dentro de um envelope onde jaz até hoje, mas penso que pode ir fora; ou será que não?
Chegou finalmente a minha vez. Atende-me uma solícita funcionária, como todas as outras, aliás, e pede-me a carta de confirmação. É que até se dão ao trabalho de, sempre que mudamos a morada, voltarmos lá para confirmar a decisão, não vá o diabo tecê-las e, arrependidos da mudança, voltarmos com a mobília às costas para o sítio de onde mudámos: assim evitamos o transtorno que tal arrependimento acarretaria  e fica tudo sem efeito. Temos 60 dias para pensar bem na decisão. « A carta? -  Pergunta.» Feliz por a pergunta ter sido feita no singular, respondi: « Tenho-a aqui, mas mudei os códigos».  « Pode digitar.». A medo, como quem corta o fio de uma bomba sem saber se está a cortar o fio certo, digitei. Alívio, funcionou! Mais segura de mim digito segunda vez, como me foi pedido, mas agora mais rapidamente e para ai de todos os meus ais ouço a temível palavra: «bloqueou»,  dita numa voz que me pareceu grave, mas creio ser devido ao meu pavor pois a cara que exibia, assente num pescoço lembrando um tronco forte e largo , um pouco por culpa da camisa apertada demais no colarinho, até ostentava um leve sorriso. Aflita, ponderava qual dos cinco PIN(s) de que era portadora, numa das duas cartas com que me fazia acompanhar, deveria então digitar quando a voz salvadora me tirou do devaneio: « Digite novamente que só inseriu três dígitos, com calma para não bloquear outra vez.».

Então era só isso? A palavra dita por esta não tinha associada a gravidade da outra. Se me enganasse e bloqueasse o cartão digitava outra vez e ficava tudo resolvido? E nem sequer tinha precisado da primeira carta? Deixei-me de complicações e de incursões filosóficas sobre a motivação da primeira funcionária que tanto me tinha traumatizado e pisguei-me dali para fora, não sem antes perguntar: « Esta já pode ir para o lixo?» Ao que me respondeu: «  É melhor não, que às vezes há problemas com as finanças.» Ora, bolas! Saí, ainda perseguida pela voz poderosa da minha imaginação « A carta, sempre consigo, sempre consigo, sempre…»

domingo, 18 de agosto de 2013

O relógio do cuco

Jamais me esquecerei do relógio do cuco. De hora a hora lá ficava na esperança de o ver sair do buraco com o seu cu-cu característico inconsciente do facto de ele contar a passagem do tempo, a passagem de segundos, minutos, horas, vidas inteiras.
A minha mãe ria-se, por entre mais umas pedaladas na máquina de costura, e alertava-me para ter cuidado, mas eu, por mais longe que estivesse da sala de jantar onde ele cantava saía disparada e, se por azar ou devido à hora, o apanhava já dentro do ninho, sentia uma perda irreparável: como quem perde um tempo que já não volta. Voltava cabisbaixa e a minha mãe, conhecedora das coisas dizia: ”Ele volta, não te preocupes”.
Uma altura avariou. Para mim foi uma tragédia pois ele era, a par dos chapeuzinhos de chocolate e das pinhoadas que, logo pela manhã, a minha mãe me comprava no caminho para a casa das senhoras ricas onde trabalhava, a minha distração. Não havia televisão, nem brinquedos – que me lembre – por isso mesmo a sua perda foi irreparável, fiquei sem alegria, sem o meu amigo cuco que saía mais ou menos vezes do buraco consoante a hora do dia que anunciasse. A geringonça mecânica era um cuco de verdade, só para mim, mas era. Imaginação de criança não permite restrições de natureza física; ele era feito de carne, osso e penas e tinha sentimentos só reconhecidos por mim, talvez fosse apenas a projeção dos meus nele, mas eu reconhecia se estava triste ou alegre pelo tom com que cantava anunciando a passagem irreversível do tempo.  
Acho que fiquei doente; eu era assim, e ainda hoje sou: qualquer coisa me transtorna o espírito e logo me massacra o corpo. Já não queria ir de manhã cedo com a minha mãe: “ O cuco, mãe?” “Ele volta! Agora levanta-te!”. Chegadas ao destino corria para vê-lo, mas o buraco continuava vazio e o peso da sua ausência fazia-se sentir em mim; é que a ausência de um amigo que vai sem se despedir e dizer se volta ou não é aterradora, perdemos um pouco de nós próprios que eles levaram sem disso ter consciência.
Um dia voltou, eu sei que foi por mim pois a dona da casa compadecida da minha dor lá o mandou arranjar se bem que já estivesse decidida a trocá-lo por outro mais moderno. Com ele voltou a alegria e vontade de me levantar pela manhã e correr pelo corredor afora a cada quarto de hora que era o tempo que demorava entre cada aparição. Ainda hoje, quando ouço um, me parece sempre ser um cuco de verdade até porque ao desaparecer no tronco feito relógio, o escuro que se faz lá dentro aguça a imaginação e torna possível tudo aquilo que a realidade por si só impossibilita.

sábado, 17 de agosto de 2013

Inconciliáveis opostos

Olharam-se, uma do alto da sua história com perto de três séculos feitos , a outra, do alto da sua contemporaneidade; a primeira, firme e serena, esfinge branca, alta e fria, com modos à antiga cumprindo normas e preceitos, rituais com toques de arrogância que regulam a vida dos que se regem por eles, a outra quente e mundana, sedutora no seu vestido vermelho que à noite alcança o apogeu de luz , desregrada e moderna contendo  promessas de ávidos prazeres; rivalidades inconciliáveis as desunem e, no meio do pomo da discórdia, ao destilar de um ódio quer barroco quer moderno, o rio Mondego assiste, qual testemunha muda e indiferente sem se pronunciar.
 Onde Sobriedade e luxo se confrontam, em margens opostas, empunhando cada qual a sua espada, defendendo cada uma um território de valores contraditórios e inexpugnáveis, separadas pelo tempo e pelo rigor de uma em contraste com o pendor displicente da outra, duas belas torres, cada qual com seu encanto: uma feita de cultura e recato, a outra, consumo e depravação; rivalidades femininas na luta sem tréguas por pretendentes que, indiferentes à disputa, se repartem por ambas sentindo apelos opostos quer se deitem com uma quer acordem com a outra.
Os mais incautos deixam-se apanhar, à noite, como insetos desgovernados que rodopiam em círculos atraídos pela mais ruidosa e atrativa nas suas cores berrantes e incandescentes, a outra vai lembrando e incitando à reflexão e contemplação com toques de um sino regular qual pai no seu autoritarismo relembra a filha da hora de recolhimento e o seu poder de sedução está ancorado em crenças e valores intemporais e seguros que dão conforto e alento quando a outra já esgotou há muito o prazer de ser novidade. Volta, assim, a antiquíssima ,às luzes da ribalta, mais contida e por isso mesmo mais segura e pujante no seu inviolável sentido de missão: regular a vida através de toques pontuais e sonoros, relembrar que é hora de partir em batalhas que ainda estão por ganhar.  



segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Síndrome das personalidades plásticas

Earl Tupper jamais imaginaria que 70 anos depois a sua invenção iria transpor a  funcionalidade prática para que foi criada e fosse objeto de incursões histórico-filosófico- psicológicas por parte de quem não tem mais nada que fazer e se põe a discorrer sobre tipos de personalidade associados ao número de tupperwares que cada um tem no armário da cozinha. A questão é que não podes ser boa rês se o teu armário estiver recheado de tupperwares, todos com a tampa certa; isto é um facto iminentemente científico…
A menos que estas soberbas invenções de Earl Tupper tenham asas e uma propensão para, pela calada da noite, galgar escadas e parapeitos numa incursão turística lembrando couchsurfing, para nos saírem de casa só têm um meio: irem passear para a cozinha de uma outra entidade, recheadas daquilo que tivermos na altura para partilhar. Lá vão eles – os taparueres, num trejeito aportuguesado – airosos e felizes abancar noutra freguesia para quando voltarem, se voltarem, já virem mudados, transformados na sua essência que é o mesmo que dizer com outra cabeça que na linguagem das embalagens significa simplesmente com outra tampa.
Outro motivo não existe para que as ditas caixinhas de plástico ou desapareçam como num ato de prestidigitação ou lhes salte a tampa; a única explicação é seres boa pessoa e ofertares o que quer que seja dentro deles e ficas como já reza a história sem o amigo e sem o dinheiro sendo que neste caso é sem o amigo e sem  dita caixinha ou respetiva tampa.
 Tudo isto pode ser avaliado através de um simples cálculo podendo-se então inferir uma determinada personalidade. Ou seja, existe um simples teste para determinar quem é mais generoso nisto de partilhar géneros alimentícios, normalmente já cozinhados e tudo: contas quantos tupperwares tinhas no início, contas quantos tens no momento do estudo assim como as supracitadas tampas e depois é só tirares conclusões. Se tiveres a mesma quantidade que tinhas no início e ainda por cima todas as embalagens tiverem a tampa certa, isso significa que não dás nem recebes comida, és, por esta mesma teoria, um unha de fome, um agarrado, egoísta e avarento;  se tiveres a mesma quantidade, mas as tampas estiverem todas trocadas isso quer dizer que tens partilhado tanto quanto partilham contigo, és um ser equilibrado embora não encaixes bem da tampa e escolhes amigos como tu – nenhum encaixa a dita cuja convenientemente; se tiveres a mais ou a menos há claramente um desequilíbrio que te pode afetar tanto positiva quanto negativamente. Aqui tanto podes ser um palonço ou um puro cigalheiro. Não falha, é matemático!
Existe uma tal dinâmica nesta invenção de  Earl Tupper que por muito que tenha observado o fenómeno nunca vi uma cozinha que tivesse os mesmos tupperwares do início, a mesma quantidade, ou com as tampas todas sequer : há muitas vezes uma troca completa de serviços de plástico e já não se sabe bem o quê pertence a quem.
Seja qual for o resultado do teu teste há, no entanto, um fator de esperança. Consoante os resultados, podes sempre começar a despachar mais caixinhas para os teus amigos e familiares, podes pedi-los de volta – de preferência cheios – ou simplesmente fazer mais do mesmo se estiver tudo bem contigo; é que tal como as benditas embalagens este tipo de personalidade é altamente plástico e flexível  e numa escala de Likert pode alternar entre o 1 e o 5 com tanta facilidade quanto uma incursão à cozinha em busca do que meter dentro da caixa.
E tu, com estás em matéria de caixinhas de plástico?



                               

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Obra prima

A vida é um livro por escrever e a arte com que escrevemos as páginas do livro da nossa é que vai determinar se vivemos ou não um best-seller, se será um drama ou uma comédia.
Cada novo dia é uma nova página que nos é oferecida, em branco, para que a escrevamos e a narrativa que escolhemos para compor o livro da nossa vida é que vai determinar a maneira como vivemos. Se não formos peritos na arte de narrar a nossa história teremos um mau romance ; se nos empenharmos nessa arte, se contarmos belas histórias a nós próprios seremos incomparáveis na arte de viver.
É que a vida, tal como uma obra prima, precisa ser embelezada, com todos os pormenores que estão lá, mas que teimamos em não ver, apressados que andamos numa narrativa automática…
Quando deixamos a narrativa da nossa vida entregue ao piloto automático, que adora prestar-nos um terrível serviço, estamos a falhar na arte de viver; é como se entregássemos a escrita do nosso best-seller ao Google  – quem conhece as traduções feitas por ele sabe que pode dar muitas calinadas.
A vida é ainda uma bela pintura; com que paleta de cores escolhemos pintá-la? Existe toda uma gama infinita de tonalidades e brilhos, de diferentes composições químicas e texturas. Porque demoramos mais a escolher a cor dos objetos que nos rodeiam do que as cores da nossa pintura? Que escolhemos realçar quando pintamos esse quadro? Que pormenores deixamos na sombra quase impercetíveis aos olhos do leigo e que outros pintamos de cores garridas salientando a forma e o tamanho?
A vida é ainda uma sinfonia, partitura escrita em tons graves e agudos, em notas escolhidas com ou sem critério e cujo maestro se encarregará de a tornar ou não harmoniosa. Um mau maestro, ou simplesmente inexperiente, pode tornar a vida uma cacofonia…

Nesta arte em que cada um de nós é o artista que compõe a própria vida, mais importante do a matéria prima com que criamos -  quer estejamos a narrar, a pintar ou a compor uma peça musical -  é onde vamos em busca de inspiração. Cuidado, muito cuidado para não esborratarmos a pintura toda, para não misturarmos realidade e ficção numa narrativa pobre em vocabulário e rica em figuras de estilo medievais. E haja santa paciência, que ela às vezes é escassa, para ouvir vidas tocadas a estilo pimba com contornos neo-populares…


quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Rivalidades

Se dúvida alguma houvesse ainda no meu espírito ela ter-se-ia dissipado hoje, pela manhã.
 Eram ambas caquéticas: vestidos desalinhados pelas posturas pouco eretas que o avanço da idade já não permite poses de manequim; sapatos cambaios, condizentes com os avançados joanetes e peles pendentes com falta de colagénio. Falavam gesticulando. Pelo jeito diria que se conheciam desde há muito tempo. Falavam das dores de ambas, quem sabe na esperança mútua de que as dores alheias, por serem maiores, ajudassem a minimizar as próprias dores. Ao passar por elas, já se despediam e pelo canto do olho pude ver o olhar de alto a baixo que uma deitou à outra-que já seguia, trôpega, a sua vida.
 Era daqueles olhares reprovativos que nós, mulheres, bem conhecemos e com os quais costumamos prendar as rivais quando achamos que se armam em boas e que sobem demais a bainha da saia angariando, deste modo, mais olhares masculinos. Tudo bem, já aceitei que nós nos vestimos para fazer inveja às outras mulheres e não para agradar os homens; que nós avaliamos as outras-mesmo inconscientemente- para nos certificarmos que não estão à nossa altura, mas naquelas idades? Que pensaria a senhora de olhar reprovador? Que a outra mostrava um pouco mais dos artelhos do que os bons costumes costumam aconselhar? Bom, talvez isso seja apenas sinal de que é mais corcunda, seguindo o vestido a tendência natural de subir de um lado e baixar do outro, e por isso mesmo deveria dar graças…

Não restam pois dúvidas de que se formos prendadas com muitos e muitos anos de vida continuaremos a ter, até ao fim, os mesmos olhares rivais femininos de outros tempos, embora nos faltem, talvez, os masculinos que justificariam os primeiros…

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Quem és tu, escritor?

Quem és tu escritor? Com trejeitos de um Deus maior, acaso te julgas um? Os teus dedos vão criando, ao sabor de um suave teclar, personagens e lugares e enredos antes inexistentes que manipulas ao sabor da imaginação do momento.
Com um olhar seleto reduzes a pó todo um universo para fazeres saltar para as luzes da ribalta o que bem entendes, pormenores insignificantes ganham, assim, uma importância inusitada enquanto outros são propositadamente omitidos. Sabe-te bem esse poder que trazes nas pontas dos dedos, oh senhor da vida e da  morte? Acaso vives tu também através dos inúmeros seres que dás à luz?
Vives com o mundo dentro e tens essa necessidade premente de o moldar à tua imagem e semelhança: única forma de te dares a conhecer; és um ladrão de vidas e sonhos de amores e essências. És ainda um indiscreto que olha dentro da alma desvendando-a a teu bel-prazer para com um toque certeiro, um volte face inesperado a pores na velha arca das recordações e usares quem sabe um dia se dela precisares; se não, ficará ela desnudada para sempre, mas esquecida relegada para um plano jamais utilizado.
Qual genocida impiedoso quantos e quantos seres mataste tu à nascença? Quantas crenças alheias derrotaste com uma simples pergunta? Quantos preconceitos dissipaste? Quem te julgas tu, que poder te assiste para com a palavra certa fazeres chorar o mais empedernido? Por que portas e travessas surges qual salvador, cavaleiro andante e trazes de volta quem se encontrava já esquecido.
Que fascínio têm as belas palavras que escreves para eu me descobrir? Com que passe de magia dizes as palavras que eram minhas, mas que nunca se atreveram a sair-me da boca! Oh, Deus! Por que linhas escreves e reescreves o destino daqueles pobres iludidos que o julgam seu vendo o mesmo ser desvendado numa página aleatoriamente escolhida.
Ah, mas às vezes as tuas personagens tomam conta de ti, possuem-te com uma tal força que se inverte o poder; ganham vida própria e viram-se contra o próprio criador e és tu que lhes tens de seguir os passos: pegam-te na pena e dominam o enredo, enredando-te junto, transportando-te ao inferno por ti tantas vezes criado e onde realidade e ficção se misturam mesmo fazendo parte de universos paralelos que jamais se tocam…

Triste sina a tua, vais de senhor a servo na inconstância dos dias e noites que passas criando seres que na volta te criam a ti…

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Embaraço

As coisas têm a importância que lhes conferimos; a importância das coisas simples, corriqueiras e banais só nos apercebemos dela quando um dado artefacto ou objeto de utilidades múltiplas nos falta. Falte-nos um lenço de papel numa triste hora em que nos apercebemos com desgosto que o descuido da empregada de limpeza nos deixou- principalmente a nós mulheres- a balançar numa posição pouco digna e seremos capazes de despejar todo o valioso conteúdo da nossa bolsa no chão, milhentas vezes pisado, à procura do dito cujo; que alívio se por descuido jaz um, nem que todo amarrotado, nos confins da mesma!
Os lenços são dos tais objetos que só sabemos que existem quando estão ausentes numa hora de aperto, uma hora em que nos apercebemos que a maldita mudança de temperatura nos pôs o nariz outra vez a correr em bica por culpa da constipação mal curada: que constrangimento utilizar disfarçadamente o avesso da manga da camisa para substituir o supracitado que se sente, agora, vingado pela indiferença com que tem sido tratado quando buscamos outros objetos mais valiosos, mas bem menos úteis . Já para não falar das vezes em que distraidamente fazemos uma bolinha de muco seco e quando nos preparamos para a enrolar bem enroladinha num imaculado lenço, lá está ele em falta outra vez. Olhamos constrangidos para um e outro lado à procura de alguém que detetasse este nosso ancestral hábito e zuca, para nosso descontentamento, vai estatelar-se no chão.
Para quem tem crianças o lenço é dos objetos mais valiosos e imprescindíveis; não existissem eles e as nossas maravilhosas crianças passeariam com os pais ao domingo com as beiças pintalgadas e as mãos lambuzadas; e os narizes? Esses aí convidariam a um retorno rápido a casa estragando o humor de toda a família…
Pergunte-se a algum cavalheiro de nobres costumes o que sentiu na hora em que disponibilizou o seu ombro amigo para alguma desgostosa donzela lá desanuviar a alma quando deu por falta do lencinho. Das duas uma: ou arrependido do ato mandou-a ir limpar o ranho para outro ombro menos esquisito ou teve de voltar para casa com nojo do próprio ombro, agora húmido dos desgostos alheios.
Não nos iludamos, pois, com o valor das coisas. Algumas reduplicam o seu valor em certas horas para voltarem ao seu estado costumeiro de invisibilidade quando procuramos quotidianamente objetos que nos são caros, mas que são, pela sua idiossincrasia, incapazes de nos tirar de apuros…